Variedades

Sexta-feira, 03 de julho de 2009, 19:32
Capa de 'Os Brasileiros', de André Toral
Capa de 'Os Brasileiros', de André ToralDivulgação

André Toral adapta História do Brasil para os quadrinhos

Sem abandonar a ficção, antropólogo reúne em livro sete histórias dentro do conceito de ‘brasilidade’

Por Alessandra Lopes

Saiu este ano pela editora Conrad o livro “Os Brasileiros”, compilação de histórias em quadrinhos desenhadas pelo antropólogo e historiador paulistano André Toral. Nas 88 páginas do livro, encontra-se muita aventura, misticismo indígena, as questões territoriais e também violência.

Toral trabalha com o conceito de brasilidade, que nem existia na época em que se passa a primeira história – as sete histórias abarcam o período que vai do século XVI até os dias atuais – e, segundo ele, um conceito fechado de brasilidade continua a não existir, pois trata-se de uma idéia em constante elaboração.

No papo que tive com ele, Toral, que também é professor de história da arte, fala sobre brasilidade, veracidade histórica, ficção, vocação para os quadrinhos e o medo de criar “quadrinhos-cabeça”!

Eldorado - Quem nasceu primeiro? O André Toral historiador e antropólogo ou o Toral quadrinista?

André Toral - O quadrinista. O quadrinista nasceu antes do André Toral aprender a ler! Eu era inimigo daquelas coisas pretas que atrapalhavam: as letras! Muito tempo depois é que eu fui prestar atenção nas letras. Antes de ser alfabetizado, eu tentava descobrir a sequencia dos quadrinhos sem as letras. Por isso é que os quadrinhos são uma coisa interessante, eles usam duas formas de entendimento, o entendimento racional e o subjetivo que vem com as imagens. Agora o meu maior medo é fazer quadrinhos “cabeça”, com muito conteúdo e pouca imagem.

“Os Brasileiros” é uma obra ficcional?

É uma mistura das duas coisas. Tudo o que eu faço é baseado em História, e no entanto, é tudo mentira! Agora, o historiador e o romancista muitas vezes fundem seu ofício, porque o romancista assim como o historiador tem os mesmos desafios, quais são? Fazer com que a história se torne algo atraente, fazer com um século caiba numa página, todo historiador, como todo romancista tem uma preocupação literária, não adianta fazer uma bela versão da história se ela fica intragável. Qual é a diferença então do romancista pro historiador? É o compromisso com a verdade que o historiador tem.

Eu acho que a gente pode falar sobre coisas que são verdadeiras utilizando um recurso ficcional. Os dados, as personagens, tudo isso, a gente baseia na história, mas o que amarra tudo isso é um roteiro de ficção. Que é um pouco também como se faz história; por exemplo, o Grito do Ipiranga, primeiro, o grito não foi feito nas margens do rio Ipiranga, e sim numa colina; segundo, D. Pedro não montava um cavalo e sim uma mula; o regime to dos Dragões da Independência só seria criado mais ou menos uns cem anos depois de Pedro Américo ter feito o quadro – eles não estavam presentes com aqueles uniformes naquele evento. Então esse fato histórico que foi o Grito da Independência, o Brado do Ipiranga, na verdade é uma abstração que nunca existiu como existe na cabeça de todos os brasileiros, no entanto a gente acredita nele como se ele fosse um fato concreto.  Quem fez essa versão? Foi um pintor, foi Pedro Américo que construiu um fato, esse fato está grudado na nossa imaginação, e a gente acredita que a Independência se deu daquela forma – nunca foi.

Como o trabalho do Toral quadrinista repercute no meio acadêmico, junto aos seus colegas historiadores e antropólogos?

Geralmente é muito bem recebido, até porque todo historiador desconfia da “história oficial” e gostaria de escrever a sua própria história, sem ter que se ater às minúcias, ao rigor que o método impõe. Com relação aos antropólogos, a coisa fica mais complicada, porque a antropologia tem uma preocupação de resgatar a maneira pela qual a cabeça dos outros reconhece o mundo, a visão de mundo das outras pessoas. Isso eu procuro fazer, mas não procuro fazer como se eu fosse um índio, eu procuro sempre analisar as relações dos índios com os brancos. O que eu analiso são as relações entre índios e brancos ao longo da história. O eixo do meu livro é exatamente este, é como se dá a construção de uma identidade brasileira ao longo da nossa história usando como fio narrador, o destino dos brasileiros nativos, ou seja, os índios, e aí a gente acaba também com essa história de que ser brasileiro é uma coisa única.

Na verdade, ser brasileiro em 1600 era uma coisa, ser brasileiro em 1800 era uma coisa, e ser brasileiro hoje em 2009 é uma coisa completamente diferente. Então a identidade brasileira é algo que está em permanente construção, como qualquer identidade nacional de qualquer país; não é algo parado, estático, imutável, cristalizado no tempo, mas é algo que está continuamente se transformando. As pessoas têm geralmente de cultura, uma imagem estática, ou seja, os índios, os que estão no Brasil hoje, as pessoas consideram como ex-índios, ou índios aculturados, o “bom índio”, o “índio verdadeiro”, é aquele que aparecia lá no começo da nossa história colonial, em 1500, 1600. Esses índios que estão aí hoje, de calção, relógio, mexendo no computador, são “índios falsificados”. O que eu quero colocar, é exatamente isso: não existe índio misturado ou verdadeiro, são índios simplesmente. Da mesma forma que eu não poderia mostrar um retrato do meu avô, com chapelão, bigodão e dizer: “esse é um verdadeiro brasileiro, eu não sou brasileiro, sou brasileiro falsificado”. Eu sou igual ao meu avô, nós dois somos brasileiros, mas nós paticamos a identidade brasileira de forma diferenciada, é diferente ser brasileiro como meu avô era em 1940, 1950, de ser brasileiro hoje em dia, em 2009.

É um pouco isso o que eu gostaria de fazer, atualizar a identidade brasileira a partir da visão de um povo que sempre viveu no Brasil – os índios. Como eles vão mudando ao longo da nossa história, mudando muito em função de um contato com a sociedade européia. Mas mesmo mudando, se transformando, mesmo usando calção e relógio, eles não deixam, nem por um instante, de serem considerados e se considerarem como índios. Esse é mais ou menos o viés antropológico que eu procuro dar pra essa história.

Para criar ficção, o autor precisa ter um repertório de histórias, relatos, vivências. De que modo você constituiu o seu repertório?


Auto-retrato feito por André Toral (Divulgação) 

Eu, até pela minha condição de filho único, criado em apartamento, sempre fui uma pessoa muito quieta, pra dentro, sozinha, gostava das minhas coisinhas. Quando eu fiz 18, 19 anos, comecei a fazer Ciências Sociais, na Universidade de São Paulo, eu comecei a viajar, e de repente eu mudei. Durante os últimos 30 anos eu sou antropólogo profissional, eu viajo, vejo coisas, então eu juntei esse André que gostava de ler, de ficar fazendo suas coisinhas, com esse André que tinha que, forçosamente, entrar em contato com gente, andar no mato, então é uma mistura das duas coisas.

No fundo eu continuo gostando de brincar de guerra, como quando eu era pequeno, mas tenho uma vivência de adulto, procuro situações, vivências, principalmente as que eu tenha visto, que eu conheça de perto; todo escritor escreve sobre aquilo que lhe é familiar, não é diferente no meu caso, no caso dos índios, ou das histórias “históricas” que eu faço, é tudo baseado naquilo que eu conheço muito bem. Eu continuo um rato de biblioteca, continuo tendo prejuízo gigantesco comprando livros, então, as minhas histórias são muito bem documentadas. Mas como eu disse no começo, é tudo fantasia, é tudo imaginação. Todo autor de história em quadrinhos é como se fosse uma espécie de diretor de cinema em miniatura, a gente decide as roupas, o roteiro, as falas das personagens, a gente mata as pessoas quando a gente quer, decide quem casa com quem, quem vai ficar solteiro, nós temos um poder quase divino! Com baixo orçamento! Temos a possibilidade de fazer com histórias desenhadas, escritas, aquilo que o diretor de cinema faz com imagens. E qual é a característica disso tudo? A sedução, a gente tem que criar uma coisa que seja sedutora, que faça o leitor viajar. Esse é exatamente a definição de finzione, fingimento como se diz em italiano, criar o que na verdade não existe.

Qual a medida do seu sucesso? É quando o leitor viaja, quando ele entra na sua proposta e sai da realidade em que ele vive e passa a viver uma outra realidade. É nessa realidade extraordinária que eu gostaria que as pessoas viajassem; o livro por isso tudo é um enorme convite para que as pessoas viajem pela história do nosso país e estranhem a história, não que as pessoas tenham da história a visão tradicional, quero que elas se surpreendam, fazer com que a pessoa possa fazer com a história o que ela poderia fazer com a sua própria vida: reimaginá-la, reinventá-la, se ver e imaginar de uma outra forma.

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