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Sexta-feira, 19 de dezembro de 2014, 10:12
Capa de 'Zerima'
Capa de 'Zerima'Divulgação

Luiz Melodia volta a músicas inéditas em clima familiar

Renato Vieira
O Estado de S. Paulo

No encarte de Zerima, primeiro álbum de inéditas de Luiz Melodia em 13 anos, há uma foto na qual são vistos vários porta-retratos em cima de uma mesa. Em primeiro plano, ele está ao lado da mulher, Jane, e do filho Mahal. Algo simbólico, já que a família é o centro da concepção e do resultado final do disco que marca seu retorno ao presente cotidiano da criação.

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Após Retrato do Artista Quando Coisa (2001), Melodia se revisitou em Ao Vivo Convida (2002) e em Estação Melodia (2007) releu sambas antigos, também dando origem a uma versão registrada no palco. Ele continuou fazendo shows e participações em discos de amigos. Até que a cobrança do público por maravilhas contemporâneas vindas de suas mãos o motivou a gravar.

“Fui tomando gosto pela ideia, achei que era hora de tentar algo novo. Mas, ao mesmo tempo, me deu uma apreensão muito grande, pelo tempo que fiquei sem fazer música. Era algo que, nesse tempo todo de carreira, nunca tinha acontecido comigo. Tentava, mas não sabia por onde começar o disco, mesmo com material pronto”, confessa Melodia. O apoio de Jane foi fundamental. Ela sugeriu chamar o produtor Líber Gadelha, que fez o cantor e compositor vender cem mil exemplares pela primeira vez por Acústico Ao Vivo (1999). Com o repertório selecionado, começaram as gravações. Gadelha teve problemas de coração e Melodia uma otite, que o deixou de cama por três meses. Os trabalhos foram interrompidos.

Deitado, Melodia começou a repensar o disco. Lembrou-se da irmã, Marize, morta há quatro anos. Daí saiu Zerima, seu nome ao contrário. Via Jane sempre a seu lado. A mulher, compositora bissexta, cantarolava Moça Bonita de forma despretensiosa. Ele a quis para o repertório. Caindo de Bêbado é outra com origem no período de recuperação. O álbum foi remodelado e metade das músicas que estavam no repertório inicial ficou de fora.

A afetividade familiar permaneceu. Mahal, rapper, introduziu as rimas de sua Viva Caymmi na regravação de Maracangalha. Jane faz vocais em sua composição. E o álbum fecha com a instrumental AmusicadoNicholas, dedicada ao neto de Melodia. “Eles estiveram do meu lado o tempo inteiro. Ter ficado três meses em uma cama poderia ter prejudicado o disco, mas acabou sendo benéfico pela presença deles”, afirma o artista.

Cheia de Graça foi a escolha perfeita para a abertura de Zerima. Com metais e baixo grooveado, é a faixa que melhor expressa o retorno de Luiz Melodia ao repertório autoral. É samba, soul e dor de cotovelo à carioca ao mesmo tempo. Temperos que são pouco utilizados – em 41 anos de carreira fonográfica, gravou apenas nove discos de inéditas, muito por culpa do outrora poderoso mercado que exigia regravações e o exilou no rol dos malditos. Mas quando a cozinha é aberta, vem um saboroso banquete.

“Eu componho de tudo. Não coloco regras. Vai saindo naturalmente, não penso em fazer um disco com músicas diferentes entre si. E gosto assim”, diz o cantor e compositor, que, além de Líber Gadelha, contou com a participação do saxofonista Humberto Araújo na produção do álbum. A presença do músico reflete a predileção pelos sopros como cama para sua música. Melodia lembra de seus trabalhos anteriores, arranjados por Serginho Trombone e Oberdan Magalhães, da Banda Black Rio. Zerima, afirma ele, é uma reconexão com o que produziu em termos de sonoridade. Os parceiros Renato Piau e Ricardo Augusto também reaparecem nos créditos de autoria de algumas faixas.

Nem por isso Melodia deixa de estabelecer contato com uma geração posterior à dele. A cantora Céu é convidada da faixa Dor de Carnaval, mais uma homenagem à sua escola de samba, a Estácio de Sá. Os dois se conheceram quando ela o convidou para participar de Vagarosa (2009), cantando Vira Lata. A retribuição do chamado veio em forma de uma música sobre o sofrimento de quem torce pela agremiação, há anos fora do Grupo Especial do carnaval carioca. “Fiz pra cantar com a Céu e porque precisava falar da escola. A gente sofre com ela. Mas, assim como todas as outras, continua linda”, ressalta.

Zerima também passeia pelo clima de gafieira (Vou Com Você), samba-canção (Cura), malemolência do Recôncavo Baiano (Moça Bonita). Na diversidade coesa que perpassa sua obra, o felino mostra que continua com as garras afiadas.

Regravações. Uma das melhores faixas de Zerima é a tocante regravação de Leros e Leros e Boleros, de Sérgio Sampaio, cuja morte completou duas décadas em maio. Melodia salienta que ela entrou no repertório por acaso. “Fui cantando músicas no estúdio, e essa era uma que eu tinha pensado em deixar para uma outra oportunidade. Líber ouviu e ficou bastante sensibilizado.” A saudade daquele que na música Doce Melodia bradou ‘Luiz Melodia, melhores dias virão’ é constante e foi transmitida na releitura, em cujo arranjo se destacam o saxofone de Humberto e o piano de Julinho Teixeira. “Começamos juntos, era um amigo muito talentoso e hoje ele é valorizado. Isso me deixa feliz”, comenta.

A inclusão de Maracangalha foi motivada pelo desejo de “uma levada diferente” para a música de Dorival Caymmi. O filho Mahal foi convidado a introduzir um rap na gravação. Viva Caymmi saúda o compositor no ano de seu centenário. “Quando ele me mostrou o que escreveu achei genial. Por isso, deixei que fosse uma homenagem maior do que a minha”, afirma Melodia.

Ele ainda pescou uma pérola obscura de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, Nova Era. Melodia se deparou com ela na internet, e concluiu que a música tinha a ver com o conteúdo do disco cujo alicerce foi solidificado. “Faça esse mal se afastar/E a escuridão clarear”, sentencia a letra.

Se Zerima teve sua base solidificada após um período de convalescença, os versos são os que melhor refletem sua origem. Do novo ao antigo, das parcerias permanentes às novas aproximações, Melodia continua indefinido e indefinível. Não se podia esperar nada diferente de alguém que, em música, já disse que na estrada da vida segue e vai.

Show. Enquanto continua com o show Estação Melodia, Luiz Melodia pensa no show de lançamento de Zerima, com previsão de estreia para setembro, ainda em local indefinido. Além de músicas do disco e dos sucessos, ele tem um plano: cantar as músicas de Pérola Negra (1973), seu primeiro e irretocável álbum, com os arranjos feitos originalmente por Perinho Albuquerque e Arthur Verocai. O disco ostenta sucessos como Pérola Negra, Estácio, Holly Estácio – gravadas respectivamente por Gal Costa e Maria Bethânia antes do registro do autor – e Magrelinha.

“Fiquei com vontade de retomar aquela sonoridade. É um disco que as pessoas cultuam, os críticos consideram um clássico”, afirma Melodia, que chegou a fazer algumas apresentações com o repertório do álbum no ano passado, por ocasião de seus 40 anos.

Em sua visão, Pérola Negra – relançado com capricho na série Três Tons em 2013 – permanece atual por sua diversidade. No morro do Estácio, Melodia tinha ouvidos abertos. Das canções de seu pai, Oswaldo Melodia, à fase Jovem Guarda de Roberto Carlos, tudo passou pelo seu filtro.

“Ter ouvido de tudo foi bom, porque você vai além dos preconceitos. As músicas de Pérola Negra ficaram porque têm algo que não envelhece. Tenho muito orgulho de ter feito um disco desse, de ter dado o meu recado logo na estreia. As pessoas entenderam. No ano passado, não celebrei quanto deveria, não estava querendo muito. Mas agora vai ser uma boa oportunidade”, diz ainda o artista.

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