Jazz

Quinta-feira, 28 de maio de 2009, 12:42
O trompetista Dizzy Gillespie
O trompetista Dizzy GillespieReprodução

Descobertas na Suíça gravações de Dizzy Gillespie com Trio Mocotó

Disco foi gravado em 1974 no estúdio Eldorado

Por Jotabê Medeiros

São Paulo, 27 (AE) - Letra profética de Gordurinha e Jackson do Pandeiro, "Chiclete com Banana", já advertia: "Só ponho bebop no meu samba quando o Tio Sam pegar no tamborim/quando ele pegar no pandeiro e no zabumba/quando ele entender que o samba não é rumba."

Em 1974, o trompetista Dizzy Gillespie, um dos monstros sagrados do bebop, já tinha pegado no pandeiro e estava bochechudo de saber que o samba não tem nada a ver com a rumba. Já tinha ido a Cuba, feito batucada no Brasil e realizado fusões fantásticas. Foi então que ele retornou ao Brasil, em agosto daquele ano, disposto a inovações. Recrutou o Trio Mocotó (grupo que lançou o samba-rock ao lado de Jorge Ben) para gravar um disco que juntasse jazz e samba.

Durante 8 horas, no Estúdio Eldorado, sala de 8 canais em São Paulo pertencente ao Grupo Estado, Dizzy gravou com sua banda brasileira - Nereu Gargalo, João Parahyba e Fritz Escovão, do Trio Mocotó, à frente. O plano era lançar um disco em janeiro do ano seguinte.

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"Dizzy chegou depois do almoço, por volta das 3 da tarde, e deu um chá de cadeira em todo mundo. Ficou uma hora fazendo meditação, deitado no chão do estúdio", conta hoje o percussionista João Parahyba. Esta semana, 35 anos depois, o percussionista (que tinha 24 anos na época) teve dificuldade para reconhecer a si mesmo nas fotos que registraram o encontro, feitas pelo fotógrafo Osvaldo Jurno, de "O Estado de S.Paulo".


Dizzy Gillespie toca com Trio Mocotó no estúdio da Eldorado (Foto: AE)

O resultado daquelas sessões nunca ficou conhecido. Dizzy foi embora levando a master do disco debaixo do braço e nunca o lançou. Chegou a fazer discos híbridos de jazz e música brasileira mais adiante, mas não se teve mais notícia daquela master. Até o ano passado. Um produtor suíço, Jacques Muyal, da LaserSwing Productions, achou a famigerada master de "sambabop".

Mas Muyal tinha um problema: não havia nenhuma informação técnica no disco sobre as circunstâncias da gravação e a banda que acompanhava o mito do trompete. Procurou os brasileiros que poderiam tê-las. E foi aí que a música de Dizzy e do Trio Mocotó voltou a dar as caras.

"Irei ao Rio no mês de julho e deverei ir a São Paulo para concretizar o lançamento do disco", disse o produtor Muyal, por e-mail, à reportagem. "Dizzy Gillespie foi um grande amigo meu".

Sessões de gravação tiveram pausa de meditação e solos memoráveis


Dizzy Gillespie tinha 57 anos em 1974 e já era uma lenda do jazz, responsável pela modernização do gênero e pelo alargamento de suas fronteiras, buscando conexões com os ritmos afro-cubanos, por exemplo. John Birks Gillespie (1917-1993) ganhou o apelido Dizzy por causa de seu comportamento meio errático e a profusão de caretas engraçadas que fazia no palco.

Quando veio ao Brasil, em agosto de 1974, Dizzy já conhecia bem o País. A primeira vez que desembarcara aqui fora em agosto de 1956. Já na primeira visita, falou de seu fascínio por Dorival Caymmi. Em 1961 e 1963, voltou e elogiou a batida da bossa nova de João Gilberto. Em 1971, arrumou batucadas com sambistas de escolas de samba.

"Entre os brasileiros, reencontrei a sonoridade ideal porque, para mim, música boa é aquela que, de um modo ou de outro, tem cor negra", afirmou, segundo o "Jornal do Brasil".

Na visita que fez em 1974, tinha em mente, segundo executivos das gravadoras Philips e do selo americano Perception, fazer um disco inteiro em que o trompetista se faria acompanhar por cerca de 100 ritmistas brasileiros. Chegou a tocar no Tuca com sambistas da Escola de Samba Mocidade Alegre de Padre Miguel. Mas gravar já era outro negócio. "Reunir 100 ritmistas para uma gravação foi a primeira ideia que os empresários tentaram tirar da cabeça de Dizzy", relata reportagem do "Jornal da Tarde" de 14 de agosto de 1974.

Primeiro, os produtores sugeriram que um único conjunto o acompanhasse, tendo o grupo Os Originais do Samba como o selecionado. Mas, após alguns ensaios, Dizzy acabou se entrosando mais com o Trio Mocotó, formado por Nereu Gargalo, João Parayba e Fritz Escovão. Além do trio, estavam lá no estúdio Branca de Neve (surdo), Teo (cuíca), Rubetão, Jair e Carlinhos (pandeiros).

A banda de Dizzy incluía Mickey Roker (bateria), Al Gafa (guitarra) e Earl May (contrabaixo). Havia também Mary Stallings, uma cantora de São Francisco, muito influenciada por Carmen McRae, que Dizzy trouxe em sua comitiva anunciando como uma das prováveis sucessoras de Ella Fitzgerald.

Foi um dia complicado no Estúdio Eldorado. "Os funcionários desistiram de demonstrar qualquer preocupação com o horário quando Dizzy - duas horas depois de ter chegado – se deitou no chão para descansar um pouco antes de começar o ensaio", conta reportagem da época.

"Três horas e vários recomeços depois, Dizzy já parecia ter perdido uma grande parcela do ótimo humor com que começara seu trabalho. Mesmo assim, conseguia gravar uma parte da primeira música, "Summer, Winter, Samba", que considerou satisfatória, e correu para a cabina, onde se deitou em um sofá para ouvi-la. De repente, saiu da cabina, chamou os músicos e recomeçou tudo."

Curioso notar que essa música, segundo os jornais da época, teria sido composta por Dizzy momentos antes de sua gravação. Entretanto, em 1966, o trompetista tinha gravado, no disco "The Melody Lingers On", a canção "Summer Samba", de Marcos e Paulo Valle, e uma de sua própria autoria, "Winter Samba". A percussão era de Panama Francis e as congas eram tocadas por Candido. Não é a mesma canção, mas parecia já uma série de estudos que o músico pretendia levar a cabo em um elepê inteiro.

Os solos da guitarrinha elétrica de Al Gafa, contrastando com o samba acústico, criam um universo familiar e ao mesmo tempo insólito nas canções gravadas. O produtor suíço Jacques Muyal, examinando hoje o resultado, disse concordar que é extremamente original. "Sim, é muuuito bom", disse, em português.

O percussionista João Parahyba, lembrando hoje da gravação, conta que inicialmente havia uma visão meio estereotipada do samba brasileiro, "uma coisa meio Carmen Miranda", mas que as jam sessions acabaram resultando em algo mais original e menos clichê.

No mesmo dia de agosto de 1974, a reportagem no jornal "O Estado de S.Paulo" anunciava o seguinte: "O pistonista Dizzy Gillespie vai hoje à noite ao Estúdio Eldorado para sua terceira e última sessão de gravação de um álbum de que constarão novas pesquisas de som e composições inéditas de sua autoria." O final daquilo, hoje sabemos, foi para alguma gaveta em Nova York.

"A impossibilidade de gravar um disco em apenas três sessões, como foi programado, já faz todos, até o próprio Dizzy, pensarem em novas soluções. Já há quem diga, inclusive, que não será um LP, mas um compacto duplo o disco de Dizzy gravado no Brasil", narrou um repórter.

"Ele nunca mais deu notícia daquele disco. Uma vez nós o encontramos em Montreux, mas nem ele mesmo lembrava mais daquilo. Acho que não gostou", conta João Parahyba.

Dizzy foi um dos revolucionários da música do século 20



Ao lado de Charlie Parker, Lester Young, Thelonious Monk e Miles Davis, Dizzy Gillespie implantou uma das mais revolucionárias mudanças na face da música do século 20, criando o bebop. Deixou canções imortais do jazz, como "A Night in Tunisia" e "Salt Peanuts". Filho de um pedreiro da Carolina do Sul, começou na música substituindo Roy Eldridge na orquestra de Ted Hill. Veio oito vezes ao Brasil, a última em 1991, quando tocou no extinto Free Jazz Festival com sua banda multiétnica United Nation Orchestra.

Sempre foi fascinado pela música brasileira. Na Europa, em shows na França em 1958 e 1962, tocou temas da bossa nova, como "Chega de Saudade", "Manhã de Carnaval" e "Samba de Uma Nota Só". Nos anos 60, aproximou-se da música cubana e projetou nomes como Paquito D’Rivera, Giovanni Hidalgo e Arturo Sandoval. Gravou mais de 100 discos e, ao morrer, aos 75 anos, no Englewood Hospital de Nova York, tinha câncer no pâncreas. Dizem que morreu dormindo, com uma de suas músicas, Dizzy’s Nine, tocando num gravador ligado.

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