por Adriana del Ré e Pedro Antunes/JT
Para o entendimento da obra atual de um artista, nada melhor do que mergulhar nos seus trabalhos primordiais, decifrar o caminho pelo qual se enveredou, descobrir sua evolução e, por que não, sua história de vida. Assim, para quem quiser compreender o universo de Chico Buarque contido em seu recente disco Chico (2011), que ganhou agora versão ao vivo no CD Na Carreira, vai a dica: a Universal acaba de concentrar, dentro da caixa De Todas as Maneiras (R$ 398), a discografia dos primeiros 20 anos de carreira do compositor, entre 1966 e 1986.Desde 1972, a obra de Chico Buarque foi marcada pelas parcerias, como em Quando o Carnaval Chegar, com Maria Bethânia e Nara Leão (1972), Caetano e Chico – Juntos e Ao Vivo (1972), Chico Buarque e Maria Bethânia – Ao Vivo (1975) e Meus Caros Amigos (1976).
O infantil Os Saltimbancos, de 1977, foi outra empreitada que contou com os amigos, em uma adaptação do musical em italiano, de Sergio Bardotti e Luiz Enriquez. Nas canções, um jumento, uma galinha, uma gata e um cachorro foram interpretados por Magro e Ruy, os dois do MPB-4, Miúcha e Nara Leão, além de um coro de crianças, da qual faziam parte as filhas de Chico, Sílvia e Helena, e a sobrinha Bebel Gilberto. O sucesso de Os Saltimbancos fez os Trapalhões criarem sua versão da história, com novas músicas de Chico para a trilha do filme Os Saltimbancos Trapalhões, de 1981.
Após atravessar os 21 álbuns da caixa, o CD triplo Umas e Outras, compilado pelo jornalista e pesquisador musical Cleodon Coelho e gerenciado por Alice Soares, responsável pelo catálogo nacional da Universal, convida para algumas descobertas, como a inédita de Jorge Maravilha. "A faixa foi descoberta por Alice entre as fitas do disco Sinal Fechado (1974). A canção é de Julinho da Adelaide, nome que Chico usava na época da ditadura para burlar a censura", conta Cleodon. "Eu tinha selecionado a versão que está no disco O Banquete dos Mendigos. Enquanto aguardávamos uma resposta da faixa em que pensei originalmente, que também é rara, Alice me ligou, toda feliz, dizendo que encontrou algo mais raro ainda. A faixa já estava liberada e até mixada." Ao vio, em cores e antenado
Até mesmo o intocável Chico Buarque parece estar sujeito às convenções de mercado. É preciso se mostrar antenado com a cena musical atual, criar uma relação mais estreita com os fãs por meio da internet e colocar discos gravados ao vivo nas lojas. Regras que até agora passavam longe (ou eram raras na carreira) de Chico Buarque, aos 68 anos.
Com o álbum ao vivo Na Carreira, da recente turnê que passou por São Paulo, entre março e abril, ele completa o ciclo iniciado no disco Chico, lançado em 2011, com forte divulgação por meio das redes sociais.
Registros ao vivo, de Chico, são pouquíssimos. Ao todo na discografia iniciada em 1966, com Chico Buarque de Hollanda, até aqui foram apenas cinco. Na Carreira é o sexto. Num cenário em que as vendas de discos já não atingem valores exorbitantes com seis zeros, remar e surfar na onda dos "ao vivos" era quase inevitável.
E se no álbum que deu origem à turnê os arranjos eram minimalistas – apesar de uma variedade de gêneros que vão de ritmos nordestinos (como Tipo Um Baião) à valsa russa (Nina) –, no disco ao vivo, tudo é ainda mais contido. No registro, ele está acompanhado apenas por um septeto, liderado pelo maestro, arranjador e velho parceiro Luiz Claudio Ramos.
Trata-se de um disco duplo, com 29 músicas, unindo, no mesmo repertório, seu cancioneiro composto nos anos 1970 (Desalento, Geni e o Zepelim, Injuriado, Teresinha, Anos Dourados e Ana de Amsterdam) com todas as dez canções do recente álbum de inéditas (Querido Diário, Essa Pequena, entre as mais empolgantes). A presença de Rap de Cálice, uma homenagem aos versos adaptados do celebrado Criolo, é a expressão máxima de que até os mitos, como Chico, também precisam se adequar às tendências.