A forma desesperada e apaixonante com que artista canta é o estopim do fascínio pelo disco
ROBERTO NASCIMENTO - O Estado de S.Paulo
Fiona Apple está em um relacionamento e é complicado. Sempre esteve. Desde nossa primeira espiada em seu tempestuoso universo particular, através do hit Criminal, de 1996, sabemos de suas desventuras amorosas com mais detalhes que qualquer post de amigo no Facebook. Constância e tranquilidade praticamente inexistem em seu vocabulário artístico: homens vêm e vão. Os fantasmas permanecem. "Fui uma garota má, bem má", cantou em Criminal. "Fui descuidada com um homem delicado. É um mundo muito triste esse em que uma garota magoa um garoto só porque ela pode."Através destas facetas, ou distúrbios artísticos de múltipla personalidade, o que se revela, ao decorrer do disco, é o vigor artístico de Fiona Apple aos 34 anos: é admirável que consiga, depois que o sucesso absoluto já não é mais um desconhecido, fazer um disco de tamanho foco e intensidade como The Idler Wheel... "Acho que fui uma pessoa reclusa pelos últimos 34 anos", disse, recentemente ao site Pitchfork. "Era o que fazia quando pequena, quando não ia à aula. Eu me treinei bem para ficar psicossomaticamente doente quando quiser. Até hoje, se eu vou ao Largo (boate de Los Angeles) eu me sinto doente. Toda vez que saio, é algo com que tenho que lidar. Mesmo quando vou à quitanda. Se eu tenho que ir a um lugar que não é confortável, eu não vou. Não sei dirigir. Não vou a lugar algum, exceto ao Largo. Meu irmão me leva lá. Eu ando pelo meu bairro, mas não vou a lugar algum. Tampouco quero ir", disse ao site.
Outra reportagem, do New York Times, conta que em um surto compulsivo antes do lançamento de The Idler Wheel..., causado por um impasse com sua gravadora, Fiona Apple começou subir e descer um morro em Los Angeles, por oito horas ao dia, até que suas pernas não aguentassem mais, até que tivesse de fazer fisioterapia para curá-las.
A cantora saiu de seu casulo em Venice Beach em abril, quando apresentou algumas canções, entre elas a apaixonante Anything We Want, no festival South By Southwest, em Austin. As gravações do show são parte do pacote de The Idler Wheel..., e servem de um termômetro para habilidade performática de Fiona. Nada menos que um discaço. Ao vivo, ou no estúdio.