No dia 1° de maio de 1994, o mundo perdia um dos maiores pilotos do planeta. Relembre a história, as conquistas e várias curiosidades do piloto brasileiro e ídolo mundial
Por Luciano Borborema
Vinte e um de março de 1960, o parto foi como tudo na vida de Ayrton Senna, uma correria. O pai atravessou a cidade as pressas para levar dona Neide, a mãe de Senna à maternidade. A torcida naquele início era apenas a família.
Ayrton começou a mostrar desde pequeno que tinha pressa para tudo. Dentro de casa, ele só parava diante da televisão para assistir Nacional Kid, o herói da sua geração. No clube, a paixão se dividia entre a piscina e muitos, muitos pasteis de carne. A revelação é da irmã de Ayrton, Viviane Senna que ia com ele todos os dias para o colégio.
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Ayrton Senna, filho de industrial da zona norte de São Paulo, estudou no colégio Santana durante os quatro anos do primário. Colégio religioso, de ensino rígido, disciplinador, tanta disciplina que o único momento de descontração era a hora do intervalo, quando Senna podia jogar bola e correr com os amigos. Só que na hora de voltar para a sala de aula, aquele Ayrton Senna que seria conhecido como o obcecado pelas vitórias, por chegar à frente de todos os adversários, nem sempre era rápido o suficiente. “Ele sempre chegava atrasado após um curto pit-stop de uma aula para outra”, brinca Maria Aparecida Pacheco, ex-professora de Ayrton. 
Ayrton Senna no GP do Brasil em 1984 (Foto: Arquivo/AE)
Um presente antes de completar cinco anos de idade foi o que mostrou a relação que Ayrton Senna manteria com os carros de corrida. Beco como era chamado na infância ganhou do pai Milton um kart equipado com um motor de um cortador de grama. O brinquedo construído na metalúrgica da própria família se tornou uma obsessão para Ayrton. Seu Milton ficava impressionado com a velocidade que o pequeno Senna conseguia atingir com aquela maquineta de apenas três cavalos de potencia. O mecânico espanhol Tche conta que Ayrton acabou virando piloto e mecânico ao mesmo tempo. O mecânico recorda também que no kart, Ayrton adquiriu experiência para tentar ser imbatível na chuva.
Tche acompanhou Senna no kart durante sete anos. Entre 1974 e 1980, Ayrton conquistou o título paulista, brasileiro, sul-americano e pan-americano da categoria. Nessa época, o principal adversário foi Walter Travaline que apesar de possuir uma escola de pilotagem teve de se curvar diante das ultrapassagens perfeitas que Senna fazia nos momentos das freadas.
Esgotados os duelos com Walter Travaline e as conquistas no kart, Ayrton voou para a Europa recomendado pelo campeão da Fórmula Ford Inglesa Chico Serra que serviu como intérprete durante as negociações com o dono da escuderia Vandime Ralf Firman. Serra lembra que Firman ficou atônito diante de tantas exigências feitas pelo desconhecido Ayrton. Exigências que deram a Senna logo na primeira temporada na Inglaterra, em 1981, grandes vitórias. Senna ganhou doze corridas de vinte disputadas e foi campeão da Fórmula Ford, o seu primeiro título internacional no automobilismo.
SENNA FORA DAS PISTAS
Até as conquistas das primeiras corridas na F-1 a vida de Senna se resumia ao automobilismo. Diante da obsessão pela pilotagem perfeita sobrava pouco tempo para as coisas também importantes. Em 1981, recém casado com a amiga de infância Lílian Vasconcelos, Ayrton teve de mudar para a Inglaterra aproveitando a oportunidade na Fórmula Ford. A esposa não se adaptou e eles voltaram ao Brasil. Mas, Senna não se imaginava fora do rumo que o levasse a desejada F-1. O casamento acabou e Ayrton regressou para se tornar campeão inglês na Fórmula 2.000.
O milionário e exclusivo mundo dos campeões da F-1 não alterou a sensibilidade de Senna. Doações para instituições de crianças, idosos e deficientes eram sempre feitas no anonimato. Alfredo Popesco conheceu muito bem o lado solidário de Ayrton e até hoje, dá crédito máximo a Senna por ter preservado os amigos de infância durante toda a sua vida.
Embora fossem raras as oportunidades para reencontrá-los, o piloto aproveitava os poucos momentos de lazer entre treinos, viagens e corridas. Durante o campeonato Ayrton ficava em sua casa em Portugal ou no apartamento que tinha em Mônaco. Nas férias, o refugio em Angra dos Reis e a fazenda em Tatuí eram os destinos favoritos do piloto brasileiro, sempre acompanhado da família a principal referencia para ele.
Ernesto Rodrigues, autor do livro Senna o Herói Revelado, conta que o fato de Ayrton ser muito reservado acabou provocando um incomodo boato. O escritor lembra que o rival Nelson Piquet passou a questionar a sexualidade de Senna. Enquanto o boato era comentado Senna namorava Marcela Prado.
Ernesto Rodrigues observa que Ayrton só começou a relaxar depois dos três campeonatos conquistados. Nessa época, surgiu Adriane Galisteu. E entre todos o privilégios e sonhos, Senna reconhecia que era um homem realizado. Tinha quase tudo o que queria. O único projeto que não pôde ser concluído foi o de constituir uma família com filhos.
CONQUISTAS

Ayrton Senna sempre alçava a bandeira do Brasil em suas vitórias (Foto: Arquivo/AE)
Tricampeão, rei da chuva, recordista, mestre de Mônaco, com tantas conquistas Ayrton Senna acabou se tornando sinônimo de expressões que passaram a definir as proezas que encantaram torcedores pelos quatro cantos do planeta.
Em todas as categorias disputadas mostrou que pilotava para superar limites. Os próprios, do carro e da pista. Na fulminante trajetória em busca dos três títulos na F-1, deixou marcas inesquecíveis no automobilismo, sendo campeão por onde passou. Na ida para a Europa foram três conquistas consecutivas e a bordo da Mclaren causou polêmica.
Mil novecentos e noventa, mais um título em jogo de novo no Japão. Prost venceu no Brasil, México, França, Inglaterra e Espanha. Senna ganhou em Phoenix, Mônaco, Canadá, Bélgica e Itália! No Japão, quem precisa vencer de qualquer maneira é Alan Prost. Com qualquer outro resultado Ayrton Senna é bicampeão. Na primeira curva do circuito de Suzuka, Senna resolveu dar o troco a porta fechada por Prost no ano anterior. Quando viu o francês se aproveitar do lado mais limpo da pista e disparar na frente, Senna simplesmente não freou a mais de 200 quilômetros por hora. Os dois abandonaram a prova e Senna se tornou bicampeão mundial.
Ayrton Senna ou Nigel Mansell? Quem seria o campeão de 1991? Mais uma vez a resposta estava no Japão. O fim da reta dos boxes de Suzuka foi o lugar da decisão dos três títulos mundiais que Ayrton Senna conquistou. Depois da ultrapassagem histórica sobre Prost em 1988, e da batida polêmica em 1990, agora chegaria à vez de Senna enfrentar Mansell neste mesmo lugar. Mas, a tradicional falta de paciência do inglês acabou facilitando a conquista de Ayrton. Senna deu mais um show de pilotagem. Ele alcança e ultrapassa Berger. Mas pelo rádio o chefe Ron Dennis, lembra um acordo prévio de Ayrton deixar o companheiro vencer. E Senna espera a última curva para dar passagem ao Austríaco. Gerhard Berger vence e Ayrton Senna se torna tricampeão mundial de F-1.
Na chegada a São Paulo Ayrton descobriu que já não era apenas um rapaz de classe média alta que adorava velocidade. Era o maior herói brasileiro. Todo mundo na F-1 percebeu as diferenças entre Senna e os demais pilotos. E Senna mostrou vários exemplos em que ele parecia ser o único adversário dele mesmo. No memorável Grande Prêmio da Europa, no ano de 1993, aproveitou a fina chuva para ultrapassar logo na primeira volta Michael Schumacher, Damon Hill, Gerhard Berger e Alain Prost. O show continuou até a bandeirada da vitória enquanto os adversários iam ficando pelo caminho.
A determinação, a técnica e as vitórias sempre estiveram associadas ao Brasil. O artista plástico Cid Mosca relata que o patriotismo já estava estampado no primeiro capacete que ele pintou para Ayrton competir na Europa. Com as nossas cores (verde e amarela) Ayrton Senna excedeu na F-1: foi três vezes campeão mundial, duas vezes vice, 161 Grandes Prêmios disputados, 80 pódios, 41 vitórias, 65 poles, 19 voltas mais rápidas e 614 pontos.
Relembre aqui o tema da vitória, imortalizado na TV Globo com Ayrton Senna:
Confira aqui a narração de Ayrton Senna, de dentro do seu Mclaren, sobre cada trecho do GP de Interlagos:
ACIDENTE
Depois de onze anos Ayrton Senna realizava o velho sonho de competir com o carro da Williams. Por coincidência ou ironia foi o primeiro F-1 que ele pilotou. Outubro de 1983, o teste daquele mês, superou as expectativas. Daí nasceu a atração pela Williams. Porém, ao contrário do bom resultado, a chegada à nova e derradeira escuderia decepcionou. As glórias ficariam reservadas aos tempos da Tolleman, Lótus e Mclaren.
No Grande Prêmio de San Marino de 1994, o céu azul e o brilho do sol camuflavam o sombrio fim de semana que seria vivido no circuito de Ímola. Nos treinos livres de sexta-feira, a Jordan decolou, Rubens Barrichello bateu forte e foi parar no Hospital sendo vetado para a corrida.
Sábado, a morte do austríaco Roland Ratzemberger foi instantânea, depois que seu carro se desmanchou contra o muro. Além de inconformado com todo esse terror que ia se instalando no autódromo, Ayrton Senna também não estava nada satisfeito com a Williams que pilotava.
Senna líder natural dos colegas de pista cogitou inclusive em não disputar o Grande Prêmio. O empresário de pilotos Geraldo Rodrigues, na época assessor de Rubinho foi testemunha da indignação de Ayrton em San Marino. De acordo com Rodrigues, Senna chegou a cogitar a anulação da corrida. Nada foi feito.
No dia da prova restava a Ayrton Senna prestar uma justa homenagem. O piloto colocou no macacão uma bandeira. O jornalista Lemir Martins estava em Ímola e conta que dessa vez as cores que Senna levava não eram as do Brasil. De acordo com Lemir, as cores eram da Áustria.
PROCESSO E INVESTIGAÇÃO
O campeão mundial de F-1, Damon Hill chegou a dizer que o acidente que matou Ayrton Senna foi resultado de um erro do piloto e não de falha mecânica. É uma opinião contrária a dos promotores que investigavam o acidente na época, um complicado processo que se arrastou na justiça Italiana.
A Williams de Ayrton Senna passou reto ao entrar na curva Tamburello e bateu no muro. No tribunal de Bolonha, na Itália, a acusação dos promotores se baseava em laudos de peritos italianos, que chegaram a conclusão de que a barra de direção do carro de Senna se partiu momentos antes da batida. Ayrton achava que a coluna de direção era curta e se sentia desconfortável com o volante muito baixo e distante do corpo. Pediu então para que a equipe soldasse um pedaço extra para resolver o problema.
No processo, os promotores mostraram que a solda foi mal feita e utilizava material diferente do original. A defesa da Williams se baseou em dois argumentos. Primeiro. Os pneus do carro não estariam na temperatura ideal. Segundo. O asfalto muito ondulado na curva Tamburello. Em 1996, a denúncia dos promotores foi acolhida e o processo indiciou os dirigentes da Williams por homicídio culposo.
Em 1997, a justiça italiana reforçou a convicção na quebra da barra de direção, mas inocentou todos os acusados. Dois anos depois, por falta de novas provas, Patrick Head – um dos donos da Williams e o projetista Angel Niure foram absolvidos de todas as acusações. Porém, o caso não tinha chegado ao fim. Treze anos depois, o Supremo Tribunal de Itália anunciou a absolvição de Patrick Head, no processo. O tribunal confirmou, no entanto a culpa de Head, embora tenha optado por não condenar o inglês.
INSTITUTO AYRTON SENNA
O carinho demonstrado por todo país ao ídolo das pistas aliado a uma conversa que Viviane Senna teve com o irmão dois meses antes do acidente, deram início ao IAS – Instituto Ayrton Senna.
Em março de 1994, o piloto disse à irmã que gostaria de tentar dar uma infância mais adequada às crianças brasileiras. A psicóloga Viviane e a família de Senna viram na criação da entidade a forma mais fiel de conduzir e implantar os ideais de Ayrton. Ficou acertado que 100% dos direitos de imagem sobre os produtos com a marca Senna seriam doados ao projeto. O IAS trabalha sempre com parcerias, abrangendo vários tipos de projetos educacionais conduzidos por meio do esporte, da arte e da tecnologia.
Hospitais, Universidades e empresas públicas e privadas são os principais elos entre o Instituto Ayrton Senna e as crianças, que pretendem acabar com o analfabetismo e a defasagem na idade escolar. Pernambuco, por exemplo, optou pelo Acelera Brasil. As crianças envolvidas pelo projeto em Pernambuco passaram a ler em média 15 livros por ano. A credibilidade do trabalho desenvolvido pelo Instituto é avalizada inclusive pelos personagens da F-1: Gerhard Berger é conselheiro, Alain Prost e Ron Dennis também participam.
Um dado que chamou a atenção na época da morte de Senna foi o número de kartistas que disparou nas escolinhas. As crianças e os adolescentes queriam fazer o mesmo que Ayrton fez no início da carreira. Força, amor, fé e principalmente muita determinação. Essa rara mistura de qualidades é a fórmula ideal para entender o que transformou um garoto agitado num dos maiores mitos brasileiros.
Hoje, o talento e a imagem de Ayrton Senna continuam mais vivos do que nunca. Não só no mundo do automobilismo, mas também entre seus admiradores.
Jornalista, escritor, pesquisador e professor da escola de comunicações de arte da Universidade de São Paulo – Edvaldo Pereira Lima analisou o mito Ayrton Senna no livro o ‘Guerreiro de Aquário’. Analisando a figura de Senna através da Psicologia Junguiana, Edvaldo define o piloto brasileiro de herói e guerreiro.
Para os pilotos do futuro que não acompanharam as vitórias de Ayrton Senna as imagens de arquivo, com as conquistas do ídolo, superam a imagem da morte e mantém o piloto brasileiro vivo na memória de todos até os dias de hoje.
NOVO DOCUMENTÁRIO
A produtora inglesa ‘Working Title Films’ anunciou que iniciará neste mês, a filmagem de um documentário sobre a carreira de Senna. O filme, dirigido pelo britânico Asif Kapadia e com o roteiro elaborado por Manish Pandey, vai mostrar a trajetória de Senna na F-1, incluindo aspectos pessoais como sua preparação física e espiritual para as corridas e o legado que deixou após sua morte no GP de San Marino, em 1º de maio de 1994.
EXPOSIÇÃO

Fãs do piloto Ayrton Senna poderão ver de perto pertences do ídolo. A exposição ‘Vitória’ ficará na galeria Prestes Maia, no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo, até o dia 15 de maio. A mostra tem entrada franca e estará aberta ao público todos os dias das 8h às 18h, fechando apenas em 2 e 3 de maio.
Além da Lotus amarela pilotada por Senna, estarão expostos troféus, capacetes, kart, fotos e macacões do tricampeão. Os visitantes também podem comprar no local produtos das marcas Ayrton Senna e Senninha, que têm a renda dos royalties revertida em programas educacionais em todo o País.